Djavan fala da não participação no Festival de Verão e afirma: "sempre tem uns entraves para mim"


O 24º álbum de Djavan, 69, traz uma identidade visual fortíssima. Na capa e no encarte de "Vesúvio", as fotos de Nana Moraes trazem o cantor e compositor coberto por tinta escura, preta levemente azulada, e detalhes dourados. Esse invólucro feito com uma tinta vegana, caracterização de Anna van Steen e maquiagem de Joana Seibel, embrulha um Djavan que optou por um disco pop, de baladas a algumas faixas com mais balanço.
Nessa praia em que ele mostra talento desde os anos 1970, as exceções se destacam claramente na contundência política das faixas "Solitude" e "Viver É Dever". "Impossível você ficar à margem de um processo louco como foi esse. Eu nunca vi uma eleição tão conturbada, aconteceram atos de violência em vários lugares, uma coisa inédita no Brasil", diz Djavan à Folha de S.Paulo. "Por isso a política no disco."
Num momento em que se discute mudanças ou até a extinção da Lei Rouanet, de incentivos fiscais a quem dá apoio a projetos culturais, Djavan lança mais um álbum sem esses recursos. "Nunca usei e nunca vou usar. Não gosto de fazer show nem para prefeituras. Quem vai pagar? Se é o povo eu não quero. Rejeitei muito convite. Eu nunca usei porque não preciso e não acho que eu deva usar um dinheiro que pode ser melhor aplicado."
Mas ele defende o mecanismo. "Acho que tem muita gente que precisa ser ajudada pela Lei Rouanet. O Brasil é enorme, precisa de cultura em todos os quadrantes. O povo precisa usufruir disso. Faz sentido. Não reclamo de quem usa. Eu é que peguei para mim a coisa de não recorrer à Lei Rouanet."
Djavan sente que sua vida profissional sempre correu com muita independência. "Sempre fui um pouco à margem. Teve a turma da Bahia, de Pernambuco, do Ceará, mas não teve a turma de Alagoas. Fui sempre meio sozinho nessa trajetória. Eu nunca atrelei a minha carreira ao mercado, nunca foi preponderante no meu fazer. Sempre ignorei o mercado, corri por fora."

Nessa independência criativa, chega uma fase de romantismo. Em muitas faixas, "Vesúvio" exibe um Djavan falando de amor de forma direta, explícita, como em "Um Quase Amor" e "Tenho Medo de Ficar Só". 
"Todo mundo tem medo de ficar só, de algum modo. Esse 'só' reflete aquela solidão de alma. Você não tem uma pessoa com quem dividir sentimentos, sensações, projeto. Uma companhia. Isso é uma coisa que me toca e acho que toca qualquer pessoa." As faixas, incluindo um dueto com o uruguaio Jorge Drexler em "Esplendor", são novíssimas. "Eu não consigo fazer uma música e gravar seis meses depois. Tenho que fazer e gravar. Aquela coisa de pão quente, sabe?"
Djavan agenda a gravação de um álbum mesmo sem ter músicas prontas. Gosta de entrar no estúdio com umas cinco canções e compor o resto durante as gravações. "Como a voz é a última coisa que entra na gravação, quando está tudo pronto eu sento e faço a letra. É um processo que todo mundo acha maluco, mas estou habituado a fazer assim."
Ele ri de seu próprio método. "Não é nada muito romântico falar isso, mas o que me inspira mesmo é o compromisso. Isso de precisar estar apaixonado para compor, ter de estar sofrendo e tal? Tem nada! Preciso fazer e pronto. É ruim dizer isso, porque tira o romantismo da coisa, mas é a verdade. Para mim, o prazo é uma inspiração maravilhosa."
Há pelo menos 15 anos Djavan faz música e letras, toca, canta, produz, faz os arranjos. Entre os grandes da MPB, foi o primeiro a partir para a produção independente, criando a gravadora Luanda, em 2001. "Eu tinha produtores, todos eles ótimos, competentes, mas havia incompatibilidade. Porque o produtor leva o disco para onde ele quiser, independente do que foi gravado. Essas questões começaram a me mostrar a necessidade de eu mesmo produzir os discos."
Com os arranjos, Djavan enfrentava constrangimentos com parceiros. "Eu chamava às vezes amigos talentosos, que faziam arranjos lindos, mas completamente inadequados para o que eu queria. Cheguei a gravar alguns, contra a minha vontade, só para não desagradar o amigo. Assim, para evitar essa saia justa, passei a produzir e arranjar."
Seu nome não é visto nas escalações dos festivais de música no Brasil. "Fiz muito fora do país, mas essa minha 'escassez' nos festivais brasileiros está relacionada com a dificuldade de encaixar minha proposta musical nesses eventos."
"O Rock in Rio, o Festival de Verão de Salvador, são importantes, mas sempre tem uns entraves para mim. São ligados às TVs, e aí as emissoras não pagam direito de imagem." Djavan destaca também a questão dos patrocínios dos festivais. "Eu nunca tive patrocinador, nunca quis ter, nunca cedi minhas músicas ou minha imagem para nada. Não sei explicar, não acho que é puritanismo ou porque eu seja diferente, é porque eu nunca precisei. Se posso abrir mão, prefiro não ouvir a minha música vendendo um produto."   Por: Folhapress
 

Escrito por Folha de Noticias SAJ

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