Primeiro bloco afro do Brasil, Ilê Aiyê faz aniversário de 45 anos nesta quinta; fundador lembra marcos históricos: 'Dias de Luta'


“Somos o afro pioneiro do Brasil e temos como visão sermos um bloco de referência que, com muita competência e muito saber, expande na contemporaneidade a tradição aprendida". É assim, com essas palavras, que Antônio Carlos dos Santos, popularmente conhecido como Vovô do Ilê, descreve o bloco que fundou em 1974, o Ilê Aiyê, símbolo da preservação, valorização e expansão da cultura afro-brasileira no país, que celebra, nesta quinta-feira (1º), mais um ano de vida: o 45º da história.
A programação começa com concentração às 19h, no Plano Inclinado da Liberdade, de onde sai o Cortejo do Negão, às 20h, até o Curuzu. Lá, na Senzala do Barro Preto, sede do bloco, às 21h, começa o evento em que a Band’Aiyê, ligada ao Ilê e formada exclusivamente por artistas negros, é a anfitriã da noite.
Também são atrações a cantora Daniela Mercury, os cantores Gerônimo Santana e Tonho Matéria e e diversos blocos afro e afoxés, como Filhos de Gandhy, Cortejo Afro, Malê de Malê, Muzenza, Os Negões e Olodum. Os ingressos pode ser adquiridos na sede do bloco, no Curuzu. Confira aqui os valores.
Vovô do Ilê é presidente e fundador do bloco afro. — Foto: Sérgio Pedreira/Ag. HaackVovô do Ilê é presidente e fundador do bloco afro. — Foto: Sérgio Pedreira/Ag. Haack
Vovô do Ilê é presidente e fundador do bloco afro. — Foto: Sérgio Pedreira/Ag. Haack
A cada ano que se passa na história do Ilê, o grupo se mostra mais forte e se firma ainda mais como símbolo de resistência.
"O Ilê é luta, é música, é paz, é educação, é cultura negra. Desde que nasceu, passou por várias barreiras, preconceito, mas se mantém até hoje. Isso é motivo de muita alegria", diz Vovô.

Marcos

Vovô lembra com orgulho de marcos que considera históricos na trajetória do Ilê, desde a fundação do bloco, na região do Curuzu, na Liberdade, bairro que tem um dos maiores índices de habitantes negros do país — mais de 600 mil, segundo dados do IBGE — até as comemorações pelas quatro décadas de vida do grupo.
Ilê Aiyê completa 45 anos de história. — Foto: DivulgaçãoIlê Aiyê completa 45 anos de história. — Foto: Divulgação
Ilê Aiyê completa 45 anos de história. — Foto: Divulgação
O bloco nasceu no Terreiro de Candomblé de nação Gêge-nagô Ilê Axé Jitolu, comandado por Mãe Hilda dos Santos.
Vovô Destaca como principais acontecimentos:
  • 1974: Surgimento do bloco afro;
  • 1975: Primeiro desfile no carnaval de Salvador;
  • 1980: Primeira noite da beleza negra, para escolha da Deuza do Ébano do Ilê
  • 1984: Defile com o tema "Angola"
  • 2003: Inauguração da Senzala do Barro Preto, associação cultural do Ilê Aiyê no Curuzu
  • 2014: Primeiro desfile da comemoração de 40 anos do bloco
Vovô diz que cita o desfile de 1984, quando o bloco levou para a avenida o tema "Angola", porque foi uma época marcada por muita dificuldade e preconceito. 
"Estávamos num contexto de muita dificuldade financeira, com falta de verba, e poucos acreditavam que iríamos nos manter. Além disso, na ocasião, o Ilê foi taxado de bloco de comunista, que estava ali para destoar o carnaval".
Com relação à criação da noite da beleza negra, que surgiu em 1980, ele diz que foi uma forma encontrada de valorizar ainda mais as mulheres negras.
"Desde a criação do bloco, a gente elegia a nossa deusa, mas passamos a fazer um evento especial, uma noite mesmo especial, a partir de 1980. Foi e continua sendo uma forma de resgatar a autoestima da mulher negra".

Inspiração e trabalho social

Foliões participam do tradicional bloco Ilê Aiyê em Salvador. — Foto: REUTERS/Lunae ParrachoFoliões participam do tradicional bloco Ilê Aiyê em Salvador. — Foto: REUTERS/Lunae Parracho
Foliões participam do tradicional bloco Ilê Aiyê em Salvador. — Foto: REUTERS/Lunae Parracho
Vovô ressalta que o Ilê foi inspiração para o surgimento de outros grupos afros e afoxés e que isso torna a história do bloco ainda mais rica.
"Dois anos depois da criação do Ilê, já em 1976, surgiram outros blocos e, a partir daí, eles foram se multiplicando pelo Brasil, sobretudo nos anos 80, no Rio de Janeiro, São Paulo, Recife. Infelizmente, muitos não resistiram como o Ilê e sumiram. Deixaram de desfilar e não conseguiram mais se manter", destaca.
Um dos exemplos é a Escola Mãe Hilda, que funciona há 26 anos como parte do Projeto de Extensão Pedagógica do Ilê Aiyê — desde 1995, o bloco consolidou a vocação educacional da entidade.
A instituição, que atua em conjunto com a Escola de Percussão Band’Erê e a Escola Profissionalizante, oferece educação para os níveis Educação Infantil e Ensino Fundamental – Ciclo I, ministrados em dois turnos, matutino e vespertino, para crianças na faixa etária de 7 a 12 anos de idade da comunidade do Curuzu e bairros vizinhos como IAPI, Pero Vaz, Caixa D’Água, São Caetano, Fazenda Grande do Retiro, Largo do Tanque, dentre outros.
Após completar 40 anos, a história do Ilê virou livro. A trajetória do grupo é contada na obra "Ilê Aiyê – 40 anos", que tem 280 páginas e foi lançada em 2015.
O livro, dos autores Jaime Sodré, Maria de Lourdes Siqueira, Ana Célia da Silva, Rita Maia (com a colaboração de Dete Lima) e Arany Santana, retrata as ruas do Curuzu, os circuitos do Carnaval de Salvador, os estudantes da Escola Mãe Hilda e crianças da Band’erê, Senzala do Barro Preto e as noites da Beleza Negra.
A obra ainda traz uma homenagem à Mãe Hilda, matriarca e zeladora do axé e força ancestral dos Orixás que regem as ações do Ilê Aiyê desde à sua origem.
"Comemorar 45 anos é muito marcante para o Ilê, que nunca deixou de desfilar um ano sequer desde que nasceu. Uma entidade não só carnavalesca, mas de educação, que resiste em uma cidade que ainda enfreta dificuldade muito grande com racismo e dificuldade de patrocínio", completa Vovô.

Carnaval

Desfile do Ilê Aiyê no carnaval de Salvador de 2017. — Foto: Tiago Caldas /Ag HaackDesfile do Ilê Aiyê no carnaval de Salvador de 2017. — Foto: Tiago Caldas /Ag Haack
No carnaval de 2019, a história do Ilê vai estar na avenida. O grupo desfila com o tema “Que bloco é esse? Eu quero saber: 45 anos de Ilê Aiyê”, em referência à música "Que Bloco é Esse?", escrita por Paulinho Camafeu, que é considerada um clássico do Ilê e que foi gravada por artistas como Gilberto Gil, Criolo e a banda O Rappa.
Um trecho da canção, que reprensenta bem o propósito do Ilê de valorização dos negros, diz:
"Branco, se você soubesse o valor que o preto tem / Tu tomavas banho de piche pra ficar negrão também / E não te ensino a minha malandragem / Nem tão pouco minha filosofia, não? / Quem dá luz a cego é Bengala Branca e Santa Luzia"
Vovô lembra que muitas pessoas chegaram a ser barradas por causa da cor da pele no Ilê, que reúne apenas negros e negras em seu desfile. "Muitos tinha vergonha de ser negro, de se dizer negro e tivemos que fazer isso. Só assim as pessoas começaram a se assumir”, diz.
No trecho "Somos crioulo doido, somos bem legal/Temos cabelo duro, somos black power", a canção "Que Bloco é Esse?" remonta às origens do Ilê, inspirado em movimentos negros mundiais como o Black Power e preocupado com a valorização da estética africana, sobretudo nas roupas.
A música caiu no gosto do povo no Carnaval de 1975, um ano depois da criação do bloco afro.
Ilê Aiyê desfila pelo circuito do Campo Grande, em Salvador. — Foto: Sérgio Pedreira/Ag. HaackIlê Aiyê desfila pelo circuito do Campo Grande, em Salvador. — Foto: Sérgio Pedreira/Ag. Haack
Ilê Aiyê desfila pelo circuito do Campo Grande, em Salvador. — Foto: Sérgio Pedreira/Ag. Haack
Desfile do Ilê Aiyê no carnaval de Salvador de 2017. — Foto: Tiago Caldas /Ag Haack 

"Foi uma música muito marcante no nosso primeiro ano. Saímos no carnaval com um fusca alugado que tinha um alto-falante e a gente ia cantando. No meio do percusso, no entanto, no circuito do Campo Grande, o fusca sumiu e até hoje ninguém sabe o que aconteceu. A gente teve que continua cantando no gogô. Isso marcou e ajudou também a música a pegar", lembra Vovô.
O objetivo com o tema do carnaval 2019, segundo o Ilê, é levar para a avenida "a musicalidade exposta para o Brasil que deu origem a diversos outros subtipos da música baiana" e "prestar uma homenagem a todos os compositores dos blocos afro" e também fazer uma "celebração ao cantor Gilberto Gil e seu LP Revafela, que divulgou a música “Que Bloco é esse?” e o Ilê Aiyê para o mundo".
Com o tema escolhido para a folia de 2019, o Ilê dá continuidade às homenagens à "Década Internacional de Afrodescendentes", instituída pela ONU em dezembro de 2013. Nos carnavais anteriores, o tema do Ilê “passeou” por diversos países e estados brasileiros que compõem a diáspora africana.
Na folia, o bloco realiza a tradicional saída do Ilê Aiyê do Curuzu em direção ao Campo Grande e Avenida. Uma cerimônia religiosa em reverência aos orixás e de abertura de caminhos dá início à passagem da agremiação pelas ruas da Liberdade, esbanjando cores, movimentos e letras que exaltam o orgulho de ser negro até o Circuito Osmar.
"Cada dia que a gente avança, me sinto mais feliz. Comemoramos hoje 45 anos e já pensando no próximo carnaval. O Ilê resiste e vai ainda escrever muitas páginas", destaca Vovô.

Escrito por Folha de Noticias SAJ

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