Família apela ao Itamaraty para libertar Ghosn no Japão


    A família de Carlos Ghosn --que comandava a montadora Nissan e oficialmente continua à frente da Renault-- está pleiteando ao governo brasileiro uma defesa mais veemente junto ao governo do Japão em prol da sua libertação. Nascido no Brasil, o executivo também tem cidadanias francesa e libanesa.
    Ghosn foi preso no aeroporto de Tóquio, no dia 19 de novembro, assim que pousou em jato particular. Ele é acusado pelo Ministério Público japonês de esconder cerca de US$ 45 milhões (cerca de R$ 175 milhões) em rendimentos para pagar menos impostos.
    Ícone da indústria automotiva, Ghosn (cujo nome segue a pronúncia francesa, Gôn) costurou a aliança entre a Renault e a Nissan, que permitiu salvar a montadora japonesa da bancarrota há 20 anos.
    A companhia francesa é a maior acionista da Nissan atualmente, com cerca de 40% de participação, enquanto os japoneses têm 15% da Renault. A união inclui a Mitsubishi.
    Segundo pessoas próximas ao imbróglio, uma irmã do executivo, que vive no Rio de Janeiro, entrou em contato com autoridades graduadas no Itamaraty solicitando ajuda, pois diz acreditar que Ghosn esteja sendo coagido pelas autoridades japonesas a confessar os crimes.
    Diplomatas brasileiros confirmaram o contato e dizem que a situação do executivo se tornou prioridade. Afirmam ainda que uma ação diplomática conjunta de Brasil, França e Líbano está em análise, mas não há consenso sobre como ou quando tomar a iniciativa.
    O maior receio do Itamaraty é que um movimento neste momento acabe prejudicando Ghosn porque pode ser visto como uma interferência indevida de países estrangeiros no sistema judiciário japonês, já que ainda não há sentença.
    Os governos de França e Líbano têm se empenhado ativamente na libertação. No início de dezembro, o presidente francês, Emmanuel Macron, se reuniu com o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, às margens da reunião do G-20 em Buenos Aires e tratou da situação do executivo e da aliança Renault-Nissan.
    Já o Brasil, por enquanto, optou por manter apenas atenção consular. Funcionários do Consulado Brasileiro em Tóquio visitaram o executivo oito vezes na prisão em um mês a fim de verificar seu estado de saúde, trazer notícias dos filhos e entregar cobertores e roupas quentes por causa do inverno rigoroso.
    Fontes com acesso à família veem como muito importante o engajamento do Brasil, que tem peso geopolítico maior do que o Líbano e é considerado mais isento que a França, cujo governo tem 15% de participação na Renault.
    No caso brasileiro, o interesse na situação do executivo é apenas humanitário.
    Homem de confiança da Renault, Ghosn assumiu a presidência-executiva da Nissan em março de 1999, tornando-se o primeiro estrangeiro na função. Cortou custos agressivamente e acabou com o sistema japonês de promover executivos pela idade, instituindo uma cultura de mérito.
    As mudanças deram tão certo que hoje a Nissan é mais lucrativa que a Renault.
    Ghosn era considerado um herói nacional até ser preso, quando veio à tona seu altíssimo salário para padrões japoneses, seus luxos e seus planos de fundir as três empresas --abrir mão da Nissan é visto como afronta no Japão.
    Fontes ouvidas pelo jornal Financial Times dizem que o executivo planejava apresentar a proposta de unificação das companhias durante a reunião do conselho de administração prevista para a semana em que ele foi preso.
    Por isso, a família diz acreditar que se trate de manobra interna da Nissan, que forneceu as supostas provas de evasão fiscal ao Ministério Público japonês.
    Uma investigação interna da Nissan acusa Ghosn de usar uma offshore para manter com recursos da empresa residências luxuosas em Beirute, Paris e Rio de Janeiro. No Rio, o apartamento tem quatro quartos e fica de frente para a praia de Copacabana.
    Assim que Ghosn foi preso, os advogados da Nissan trocaram as chaves das três residências para impedir o acesso da família, alegando que era preciso fazer um inventário dos bens e evitar a destruição de provas. Os filhos do executivo conseguiram por via judicial entrar na mansão em Beirute e no apartamento do Rio.
    Segundo pessoas próximas à família, foram retirados apenas objetos do executivo como pijamas, fotos da família, dinheiro e documentos pessoais.
    A Nissan, por sua vez, acusa a família de ter levado duas pastas --uma delas com logo da empresa-- sem permitir que seu representante tivesse acesso ao conteúdo.
    Nesta quarta-feira (19), a prisão provisória de Ghosn completou um mês. Pelo sistema judiciário japonês, uma pessoa suspeita pode ficar presa até 23 dias para não atrapalhar a investigação.
    O prazo, contudo, pode ser estendido consecutivamente se surgirem novas suspeitas.
    Fontes ligadas a Ghosn dizem que ele vem sendo chamado a depor várias vezes, sem a presença do seu advogado e até de madrugada. O Japão é conhecido por uma taxa de condenação que beira 100% dos casos --muitas vezes com confissão dos suspeitos.
    As pessoas que visitaram o executivo dizem que ele emagreceu 12 quilos, mas não está abatido nem enfraquecido e segue defendendo sua inocência. Quanto mais tempo Ghosn resistir, mais complicado ficará para o governo japonês mantê-lo preso, pois a pressão internacional cresce.
    Resta saber se o Brasil vai entrar nessa briga ou não. 
    Procurados, Nissan, representantes da família de Ghosn e o Itamaraty não se manifestaram oficialmente. (Folhapress)

    Escrito por Folha de Noticias SAJ

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