Não são apenas números: as mil vidas vencidas pela Covid-19 na Bahia



    Para mais de mil famílias baianas, a máxima do “nada será como antes", usada para falar da vida pós-pandemia, começou a ter um sentido diferente e triste. Elas estão na estatística dos lares que perderam parentes vítimas de uma doença que até esse ano não era conhecida pela maioria dos brasileiros.
    A milésima pessoa que morreu por complicações da Covid-19 na Bahia era homem, tinha 83 anos e estava internado em um hospital da rede pública de Salvador. Não há muito sobre a sua história, se deixa esposa, filhos. Ele se amontoou entre os 38 mortos notificados no boletim da Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab), nesta quinta-feira (11).
    Eles não são números frios, são Arlete, Carlos, Valdemar, Tânia, José. São pessoas que tiveram suas vidas interrompidas e quando o “novo normal” chegar, seus parentes não terão o acalento de que foi apenas uma fase difícil que passou.
    A Bahia chegou ao alarmante dado de 1013 mortos por Covid-19, em apenas três meses desde a descoberta do primeiro caso de coronavírus registrado no Estado, em 6 de março. /or: Reprodução/ Redes Sociais 
    Para se ter uma equivalência da quantidade de homens e mulheres que se foram, é como se toda a população da Ilha dos Frades, na Bahia, com 733 habitantes, segundo o ultimo senso demográfico, desaparecesse.
    A reportagem procurou o secretário estadual de Saúde, Fábio Vilas Boas, para comentar sobre a marca de mil óbitos na Bahia por coronavírus, mas não houve retorno do gestor.
    Mas essas pessoas, que morreram de forma tão repentina resultado da contaminação do novo vírus, não vão desaparecer da lembrança das famílias. Uma das mais recentes vítimas do coronavírus é Tia Tetê, como era carinhosamente conhecida a educadora Asteria Maria da Silva, 60 anos, moradora do Engenho de Velho da Federação, em Salvador. Viúva, ela deixou um filho e seis irmãos. 
    Tudo mudou quando o coronavírus entrou na vida da família da Tia Tetê.
    “Ela era cristã e morreu ajudando os outros. Ela era uma pessoa que vivia para ajudar o povo e a família. Continuava a fazer obras sociais mesmo durante a pandemia. Ela recolhia roupas velhas para locais como presídios, casas de recuperação. Deve ter pego essa doença [Covid-19] assim. Era relapsa, vivia com a máscara no pescoço. Achava que não ia pegar esse vírus”, lamenta um dos irmãos, o eletricista Luís.
    “Eu vou sentir muita falta, é irreparável. Ela era como uma mãe para mim. Minha irmã foi para UPA da Federação, depois foi transferida para o Hospital do Subúrbio. Ela ficou internada  por oito dias e morreu. A ficha ainda não caiu, enterramos no sábado (6), no cemitério da Quinta dos Lazáros. Muito triste. Ainda não sabemos o que fazer daqui pra frente sem ela”, desabafou.
    Profissionais que morrem  na linha de frente na guerra contra o Covid-19
    No triste recorde de mortos consta também óbitos de pessoas que sabiam do risco de morte, mas decidiram ir à linha de frente e lutar pela vida de outros na batalha contra o novo coronavírus. Alguns não resistiram e morreram nessa guerra. Médicos, enfermeiras, policiais, rodoviários, agentes de endemias, taxistas, profissionais que prestaram serviços essenciais, assim como diversos outros trabalhadores que não tiveram a escolha de ficar em casa.
    Mesmo convivendo com o medo da infecção ou do desemprego, deixaram suas famílias e mantiveram a rotina, incluindo as novas indumentárias básicas para segurança da saúde sejam máscaras, álcool gel e, por vezes, luvas. 
    Joana* é técnica de enfermagem em um hospital particular de Salvador e relata os momentos de orgulho e frustração nesses dias de combate ao novo coronavírus. “No começo eu senti muito medo, pensei em desistir. A equipe foi orientada com um novo treinamento, mas no dia a dia não tínhamos EPI’s suficientes para lidar com os doentes de Covid-19 que chegavam com mais frequência a cada semana. Colegas de trabalho começaram a adoecer. E quando saía do hospital, muitas pessoas estavam nas ruas e sem máscaras. Parecia que eu vivia em dois mundos, o da doença no hospital e das pessoas que ainda não tinham se contaminado e não se importavam com a doença. É duro, mas sigo na batalha”, relatou.
    Onde erramos? 
    Para Robson Reis, médico infectologista e professor da Escola Bahiana de Medicina, a maioria das ações realizadas pelos gestores estaduais municipais foi assertiva.
    “Temos o mais confortável número de casos, de leitos, comparado a outros estados, mas não podemos relaxar. Em relação às atitudes, os governos agiram de forma sensata, ações significaticas da educação em saúde, e importante trabalho de divulgação de higienização, uso de máscaras, prepara os leitos hospitalares, que são complexos. Necessita de pessoas capacitadas, oxigênio, materiais especiais e tudo isso demora”, analisou.
    “Mas não é o momento de flexibilizar, tem que haver balizamento entre o social e economia, estamos próximo ao pico”, enfatizou.
    Mas o infectologista destaca que poderia haver melhora em alguns pontos. “Deveríamos aumentar pessoas testadas para detectar o maior número de pessoas com o coronavírus. Outra coisa, aumentar acesso de máscaras, álcool gel e sabão para pessoas carentes usarem também em casa, que normalmente tem poucos cômodos. E a população se conscientizar. Matenham distanciamento, higienizem as mãos, usem máscaras e evitem tocar e retirar a máscara. Não levem as mãos aos olhos boca, nariz, evitem ir às feiras livres e lotéricas. Não subestime a doença", adverte.
    Perfil das pessoas que mais morrem por coronavírus
    João Silva*, de 60 anos, fez as atividades rotineiras, acordou às 4h da manhã e saiu para mais um dia de trabalho como vendedor de uma loja de material de construção. Mas naquele 30 de maio familiares estranharam o retorno precoce dele para casa, por volta do meio-dia. Ele que costumava voltar ao final da tarde, chegou em casa bem mais cedo e se deitou. O vendedor já estava tossindo há alguns dias, mas naquele dia estava febril. O quadro de saúde dele piorou muito rapidamente e em dois dias faleceu, como relatou a irmã, Lúcia*, que mora na mesma rua, no bairro de Itapuã.
    “Ele  estava bem, trabalhando, de repente foi piorando e precisou até de ambulância para ser removido para a UPA e depois para o Hospital Aeroporto. E morreu. Nem vi mais ver meu irmão, o caixão estava fechado", contou, sob condição de anonimato, por temer preconceito da vizinhança.
    Segundo o boletim da Sesab desta quinta-feira (11), a maiorias das mortes [55,08%] são de homens, com idade de 69 anos. 

    Outro dado relevante é do mês de maio, quando o estado registrou um pico no reregistro de óbitos provocados por Covid–19, com 38 mortes em um dia. [Veja quadro abaixo]. 
    Os números também revelam que o coronavírus, associado a outras comorbidades, pode ampliar  e muito as chances de morte. 
    O percentual de pessoas que já apresentavam outras doenças e com alguma doença associada a Covid-19, é de 78,18%. A maior parte é de pessoas com doenças cardíacas, representando 355 dos óbitos, seguido de diabetes, com 345 dos mortos, e, em terceiro lugar, casos de doenças cardiovasculares, correspondente a 263 mortes.

    Já estamos no pico?
    De acordo com o médico Robson Reis, estamos no limiar do pico da doença. “Já estamos provavelmente próximo ao pico. Deve ser na segunda metade de maio e todo mês de junho". 
    Especialistas do centro de pesquisa clínica e epidemiológica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP) apontam com cautela, que ainda não chegamos ao pico e ressaltam que é mais fácil identificar o auge de uma pandemia quando já passamos dela e vemos que houve uma redução consistente de alguns índices-chave, como as estatísticas oficiais de novos casos e mortes registrados por dia. 
    Enquanto esses números estiverem crescendo, não dá para dizer que passamos do pico, assim como a taxa de reprodução de um vírus.


    *Nomes fictícios foram usados para preservar a identidade das fontes
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