Mirando 2022, caciques partidários atropelam escolhas locais de candidaturas



    Na reta final para registro de candidaturas, com a conclusão das convenções, acordos de gabinete costurados por caciques partidários consolidam intervenções nacionais de última hora na escolha de nomes para a disputa nas capitais e cidades de pequeno e médio porte.

    O principal combustível é a eleição presidencial de 2022. Os arranjos, que atropelam a propagada democracia interna das siglas, ocorrem em partidos dos mais diversos campos ideológicos, da esquerda à direita. Exemplos não faltam.

    Em João Pessoa, na noite de quarta-feira (16), militantes petistas, reunidos no auditório do Sindicato dos Bancários, ainda celebravam a oficialização do nome do deputado estadual Anísio Maia (PT) para a disputa quando começou a circular a informação de que, em Brasília, a cúpula nacional do partido iria anular o ato.

    De maneira surpreendente, em outro ponto da cidade, na sede do PSB, o ex-governador Ricardo Coutinho (PSB), que enfrenta algumas restrições por ser réu em processos da operação Calvário, acabava de ser escolhido como candidato do seu partido.

    As negociações estavam em andamento, mas, até o início da convenção, não havia a certeza de que Coutinho seria realmente o escolhido.

    Apenas duas horas depois da decisão, um comunicado assinado pela presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, deixava claro a intervenção nacional no diretório municipal de João Pessoa.

    No dia seguinte, o PT informou, por meio de nota, que caminharia ao lado de Coutinho e ocuparia a vice na chapa majoritária.

    “Avaliamos como mais importante formar um bloco que proporcione a unidade da esquerda em torno da candidatura do PSB.”

    Coutinho é bastante ligado ao ex-presidente Lula, que deu o aval para que o PT fechasse a aliança. O presidente do PSB, Carlos Siqueira, que costurou dobradinhas com o PDT em oito capitais, tem adotado uma postura bastante crítica em relação a Lula.

    Ouvido pela Folha, o petista Anísio Maia disse que sofreu uma grande violência patrocinada pela cúpula do partido. Ele relata que um dia antes de ser oficializado em convenção, em reunião com Gleisi por meio uma plataforma digital, houve a garantia de que realmente seria o candidato.

    O deputado afirma que vai resistir no campo político, jurídico e social. Mesmo depois da intervenção, a chapa com o nome dele foi registrada e já consta na lista de candidatos disponibilizada pela Justiça Eleitoral.

    “Durante todo o processo, tivemos a construção da nossa chapa com 100% de apoio. Não houve contestações. Fizemos debates com mais de 300 pessoas em seis subgrupos e, agora, fazem isso para apoiar Coutinho”, criticou.

    O ex-governador da Paraíba Ricardo Coutinho foi preso em dezembro do ano passado durante a sétima fase da operação Calvário, que investiga supostos desvios de recursos públicos na ordem de R$ 134,2 milhões.

    No início de agosto, o ministro Gilmar Mendes autorizou o ex-governador a retirar a tornozeleira eletrônica. Ele ainda precisa obedecer o recolhimento noturno em sua residência, no horário entre 20h e 5h. Por isso, não vai participar de debates que ocorram à noite.

    No Recife, o deputado federal Túlio Gadêlha (PDT) foi retirado da disputa depois de ter a candidatura estimulada fortemente por Ciro Gomes e pelo presidente nacional do PDT, Carlos Lupi.

    “Aqui no Recife, nós vamos com Túlio Gadêlha, que não é uma novidade que caiu de paraquedas. Ele é treinado por nós no trabalhismo desde a juventude. Temos condições de oferecer ao povo do Recife uma alternativa”, declarou Ciro recentemente.

    Depois de retirar Túlio da disputa para apoiar João Campos (PSB), filho do ex-governador Eduardo Campos, o PDT nacional destituiu o deputado do comando da sigla no Recife.

    O acordo para retirada da candidatura de Gadêlha também foi alvo de críticas por reproduzir a movimentação que aconteceu em 2018 entre PT e PSB.

    Naquele ano, para isolar o PDT de Ciro Gomes na eleição presidencial, o PT retirou a candidatura de Marília Arraes ao Governo de Pernambuco, facilitando o caminho para a reeleição de Paulo Câmara. Em contrapartida, o PSB retirou sua candidatura em Minas Gerais e declarou neutralidade na eleição presidencial.

    ​Neste ano, Marília viveu um processo inverso. Ela perdeu a disputa no diretório municipal, que queria aliança com João Campos, mas a executiva nacional do PT bancou sua candidatura.

    Túlio Gadêlha se diz vítima do acordo de cúpulas. Ele alega que os atropelos enfraquecem a democracia interna e as direções locais. “Os filiados acabam não escolhendo os seus dirigentes. É grave”, diz.

    Desde que saiu da disputa, ele ainda não falou com Ciro Gomes.

    Em São Paulo, o PTB retirou de última hora a candidatura de Marcos da Costa para apoiar o deputado federal Celso Russomanno (Republicanos). Ele agora vai ocupar a vice na chapa.

    Até um dia antes da decisão, o PTB propagava que manteria a candidatura própria. Nos bastidores, a mudança é atribuída a uma intervenção do presidente do partido, Roberto Jefferson, após um acerto com Jair Bolsonaro.

    Procurado pela Folha, o deputado estadual Campos Machado, presidente do PTB em São Paulo, destacou que a coligação foi construída em comum acordo com a direção nacional da sigla. Ele nega que houve qualquer tipo de intervenção.

    “Nosso objetivo é unir forças conservadoras paulistanas. Além da convergência ideológica, o PTB e o Republicanos têm um longo histórico de parceria”, afirmou.

    Em Niterói, no Rio de Janeiro, o PSDB, em convenção partidária, havia decidido apoiar a chapa formada pelos candidatos Felipe Peixoto (PSD) e do vice Bruno Lessa (DEM).

    O presidente estadual do partido, Paulo Marinho, tentou fazer uma intervenção para apoiar a candidatura de Alex Grael (PDT), mas a Justiça Eleitoral barrou. Ele promete recorrer da decisão.

    O pesquisador do sistema político brasileiro Bruno Carazza afirma que as intervenções são comuns no Brasil. Ele diz que a frequência e a intensidade dependem da característica do partido.

    “Há partidos mais centralizados e outros menos. Isso acaba influindo nas decisões”, explica.

    Ele destaca que outro ponto que precisa ser levado em consideração é o fato de a legislação brasileira não exigir coligações nacionais.

    “Já aconteceu no passado, mas hoje deixa livre para que, em cada local, o partido possa definir sua coligação. Isso deixa mais fragmentado e gera mais ruído”, afirma.

    Carazza alega que as alianças políticas são próprias do jogo eleitoral, mas que o grande incômodo é a forma como elas são realizadas.

    “Os acordos são feitos em gabinetes com grupos muitos restritos, com líderes definindo e empurrado goela abaixo dos diretórios locais”, finaliza.   /Por: Agência Brasil 

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